Cabo de Santo Agostinho

Cabo de Santo Agostinho: Praia de Calhetas e História

O Cabo de Santo Agostinho, litoral sul de Pernambuco, foi nossa parada de história e praia no segundo dia da série Desbravando o Nordeste do Brasil. Acordamos cedo, café da manhã às 6h30, porque a ideia era rodar o município inteiro num único dia, da ponta mais distante até a última praia antes do pôr do sol. É um município com 24 km de orla e 9 praias diferentes, mas o que torna essa região especial vai muito além da paisagem: é a porta de entrada do litoral sul pernambucano e um dos lugares mais historicamente relevantes do Brasil colonial.

Onde fica o Cabo de Santo Agostinho e como chegar

O Cabo de Santo Agostinho fica no litoral sul de Pernambuco, a cerca de 40 minutos de carro do centro do Recife, o que faz dele um destino de bate e volta bem viável pra quem está hospedado na capital ou em Porto de Galinhas, mais ao sul. A estrada de acesso principal é asfaltada e em bom estado na maior parte do trajeto, mas as vias internas do município, principalmente as que descem até praias como Calhetas, mudam de qualidade rapidamente, de asfalto pra terra esburacada em poucos minutos de trajeto.

Rodar as 9 praias do município num único dia, como fizemos, exige carro próprio ou alugado e um roteiro planejado com antecedência, porque a distância entre a primeira praia (Suape) e a última (Paraíso) é considerável, e o tempo de deslocamento entre elas soma bastante ao longo do dia. Sem carro, dá pra conhecer uma ou duas praias por dia usando aplicativo de transporte, mas a lógica de “conhecer o município inteiro” que a gente seguiu fica bem mais difícil.

Praia de Suape: o ponto de partida do dia

Começamos pela Praia de Suape, a mais distante das 9 praias do município e a primeira parada do roteiro. É uma praia pequena, sem muita faixa de areia, mas com bastante estrutura de mesa e guarda-sol. Bem atrás dela fica o Porto de Suape, um dos portos mais importantes do Brasil. Não é uma praia pra passar o dia todo, mas serve bem como ponto de partida pra quem quer rodar o Cabo de Santo Agostinho de ponta a ponta como a gente fez.

Um pedaço de história antes mesmo de Cabral

Aqui vai um dado histórico pouco conhecido, mas bem documentado: o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón chegou ao Cabo de Santo Agostinho em 26 de janeiro de 1500, cerca de 3 meses antes da chegada oficial de Pedro Álvares Cabral ao litoral brasileiro, em 22 de abril de 1500. É uma versão amplamente aceita em fontes históricas, embora valha o contexto de que chamar isso de “descobrimento” é uma leitura controversa, já que o território já era habitado por povos indígenas muito antes de qualquer navegador europeu chegar.

A região também tem relevância geológica: essa área da costa marca parte da separação geológica entre os continentes sul-americano e africano, há dezenas de milhões de anos.

Forte Castelo do Mar

No alto do Cabo, visitamos as ruínas do Forte Castelo do Mar, hoje bem deteriorado, sem preservação adequada (encontramos pichações e lixo no local), mas com uma vista espetacular do Porto de Suape e, em dias mais limpos, de Recife ao longe. A construção está associada ao período das guerras holandesas em Pernambuco, no século 17; a data mais sustentada em fontes históricas é 1632 (não 1630, como às vezes se ouve por aí, inclusive no próprio local), quando o forte defendia a entrada do Porto de Nazaré do conflito entre holandeses e portugueses.

Vista aerea de drone das ruinas do Forte Castelo do Mar sobre uma falesia com ondas quebrando ao redor
Vista aerea do Forte Castelo do Mar, no penhasco a beira-mar.

Pra chegar até lá, é preciso descer uma trilha de terra sem nenhuma sinalização, de 10 a 15 minutos, íngreme e com buracos, não recomendada pra crianças pequenas ou pessoas com mobilidade reduzida. Não tem nenhuma placa indicando o caminho, só um letreiro lá em cima do parque avisando que o forte existe. Vale ir com calma, parando pra fotos ao longo do caminho, como a gente fez, demoramos quase 15 minutos só de descida sem pressa.

Igreja e Farol de Nazaré

A Igreja de Nazaré, também no alto do Cabo, tem uma data de fundação que costuma circular como 1597. Um estudo acadêmico da UFPE aponta que a data exata não é conhecida com certeza, mas confirma que a igreja já existia no final do século 16, o que torna 1597 uma referência plausível, ainda que não cravada. Do Farol de Nazaré, ao lado, dá pra ver o mar, e em dias de tempo limpo até a Praia de Maracaípe fica visível ao longe. A área faz parte do Parque Metropolitano Armando de Holanda Cavalcanti, e ali perto também estão as ruínas de um antigo convento carmelita.

Praia de Calhetas: a mais bonita da região, segundo os locais

Calhetas é considerada por muita gente da região, inclusive por quem mora ali, a praia mais bonita do Cabo de Santo Agostinho, mas o acesso não é fácil: uma rua estreita, esburacada e de terra, então cuidado ao descer de carro (é apertado até pra cruzar com outro veículo). Chegando cedo, a praia costuma estar bem mais vazia. Chegamos um pouco mais tarde porque estávamos fazendo o roteiro do dia inteiro pelo município, mas mesmo assim, numa quinta-feira, não estava tão cheia, nem o Bar do Artur nem as barraquinhas ao redor.

Vista aerea de drone da Praia de Calhetas, enseada de agua turquesa com barracas coloridas na areia
A enseada da Praia de Calhetas vista de cima, com as barracas coloridas na faixa de areia.
Vista aerea de drone da Praia de Calhetas com barcos ancorados na agua verde e formacoes rochosas
Outro angulo da Praia de Calhetas, com os barcos ancorados na enseada.

É um trecho de mar que os locais chamam de “praia de tombo”: aprofunda rápido logo depois da arrebentação, então tome cuidado se você não é um nadador experiente. Do lado, tem a Prainha de Calhetas, um pedaço mais tranquilo e raso, dizem que bom para observar peixes (não chegamos a mergulhar pra confirmar). No mirante de Calhetas, na entrada ou na saída da praia, vale parar pra apreciar a paisagem, que é muito bonita dali de cima. Tem também uma tirolesa famosa por ali, que desce até perto da água, mas na época da nossa visita ela estava em manutenção ou fora de operação, não ficou muito claro o motivo. Se você for e ela estiver funcionando, é uma opção de passeio mais radical pra quem gosta.

Um ponto de segurança importante pra região: o trecho entre a Praia do Paiva e a Praia da Piedade, próximo dali, tem histórico documentado de ataques de tubarão (fontes jornalísticas registram casos entre 1993 e 1997 e ao longo dos anos seguintes), com placas de risco e restrições estaduais de banho em determinados pontos. Calhetas propriamente dita não tem esse mesmo histórico, mas vale se informar sobre a sinalização de segurança de cada praia antes de entrar no mar nessa região.

Bar do Artur

Almoçamos no Bar do Artur, o bar mais famoso de Calhetas (já recebeu diversas celebridades e ficou conhecido por isso, embora um dos salva-vidas locais com quem conversamos tenha dito que a comida é parecida em praticamente todos os bares da praia, o diferencial do Artur é mesmo a estrutura). Pedimos camarão à grega, que veio com queijo coalho frito generoso, salada, batata frita e arroz à grega, pratos pensados para 2 pessoas, com o mais em conta na faixa de R$ 147. A demora foi grande (esperamos mais de uma hora, mesmo com poucas mesas ocupadas, e já estávamos com fome desde as 6h30 da manhã), mas a comida valeu o investimento e fomos muito bem atendidos pelo Wesley e pela Fátima. Importante saber: se você quiser usar mesa e cadeira, é obrigatório consumir no local, sem trazer comida ou bebida de fora.

Quando ir: sol, maré e menos gente

Assim como no resto do litoral pernambucano, a temporada mais seca no Cabo de Santo Agostinho vai de setembro a março, com mais chance de sol firme pra fotografar tanto as praias quanto os pontos históricos do alto do município, como o mirante do Forte Castelo do Mar. De abril a agosto entra o período mais chuvoso, o que pode atrapalhar principalmente a trilha até o forte, que já é íngreme e sem sinalização mesmo em dia seco.

Praias como Calhetas enchem bem menos durante a semana, principalmente pela manhã. Fomos numa quinta-feira e mesmo chegando um pouco mais tarde que o ideal, ainda achamos a praia tranquila. Fim de semana e feriado prolongado mudam completamente esse cenário, com fila pra estacionar na rua estreita de acesso e o Bar do Artur bem mais cheio do que o que descrevemos aqui.

Cabo de Santo Agostinho hoje: além do turismo de praia

Vale mencionar que o Cabo de Santo Agostinho não vive só de praia e história colonial. O Porto de Suape, que a gente avistou logo na primeira parada do dia, é um dos maiores complexos portuários e industriais do Nordeste, com forte presença de indústria naval e petroquímica. Isso molda a economia do município de um jeito que não aparece muito no roteiro turístico, mas explica, por exemplo, por que a Praia de Suape em si é pequena e pouco preparada pra receber turista o dia todo: a vocação daquele pedaço específico do litoral é outra.

Já as praias mais ao sul do município, como Calhetas, Gaibu e Paraíso, mantiveram um perfil bem mais voltado pro turismo e pra pesca artesanal, sem a presença industrial que marca o entorno do porto. É esse contraste, entre o Cabo mais industrial perto de Suape e o Cabo mais praiano e histórico nas praias seguintes, que faz sentido conhecer o município inteiro num roteiro só, do jeito que fizemos.

Praia de Gaibu e outras praias do Cabo

Do outro lado do morro que separa de Calhetas fica a Praia de Gaibu, com dois arrecifes que formam piscininhas naturais bem rasas perto da areia, e um trecho de mar mais agitado um pouco mais adiante. A faixa de areia ali é bem mais larga que em Calhetas, embora um pouco mais acinzentada. As 9 praias do Cabo de Santo Agostinho, na sequência da orla, são: Suape, Paiva, Itapuama, Pedra do Xaréu, Praia do Cabo, Enseada dos Corais, Gaibu, Calhetas e Paraíso.

Encerramos o dia já quase no fim da tarde no restaurante Bosque Verde, que tem um mirante de frente pra Praia de Itapuama, que a gente não chegou a visitar de perto nessa viagem, mas que fica na lista pra uma próxima passagem pelo Cabo de Santo Agostinho. Dali dá pra ver também a cidade de Recife ao longe, num dia de céu limpo. O sol começou a se pôr por volta das 17h30, ainda meio claro pro horário, um privilégio de quem viaja pelo Nordeste nessa época do ano, com dias mais longos do que a gente está acostumado no resto do Brasil.

As 9 praias do Cabo de Santo Agostinho, uma a uma

Pra quem quer se organizar melhor antes da viagem, resumimos o perfil de cada uma das 9 praias do município, na ordem em que aparecem ao longo da orla, sem contar só com o que a gente visitou de perto nesse dia específico.

PraiaPerfil
SuapePequena, próxima ao porto industrial, boa como ponto de partida
PaivaTrecho com histórico de restrição de banho em pontos específicos
ItapuamaVista privilegiada a partir do mirante do restaurante Bosque Verde
Pedra do XaréuMenos frequentada, mais reservada
Praia do CaboPróxima ao centro histórico do município
Enseada dos CoraisEstrutura mais urbana, resorts e condomínios ao redor
GaibuFaixa de areia larga, piscininhas naturais rasas perto da areia
CalhetasConsiderada a mais bonita por muitos moradores, acesso mais trabalhoso
ParaísoA mais ao sul do município, na sequência depois de Calhetas

Não visitamos as 9 de perto nesse dia específico, focamos em Suape, no alto do Cabo (forte, igreja e farol) e em Calhetas, encerrando com a vista de Itapuama do mirante do Bosque Verde. Mas conhecendo o perfil de cada uma, dá pra montar um roteiro de dois ou três dias se você quiser realmente se aprofundar em cada praia, em vez de rodar tudo correndo num dia só como fizemos.

As boas

  • História real e documentada, não só folclore. Chegada de Vicente Yáñez Pinzón, forte do século 17, igreja do século 16.
  • Calhetas é realmente muito bonita. Vale o acesso mais trabalhoso.
  • Vista do Mirante do Forte Castelo do Mar é espetacular. Porto de Suape e Recife ao longe.
  • Bar do Artur com comida boa, apesar da demora. Bom custo-benefício pela vista e experiência, atendimento atencioso.
  • Dá pra rodar o município inteiro num só dia. Das 9 praias até o pôr do sol no mirante do Bosque Verde.

O que não foi tão bom

  • Forte Castelo do Mar sem preservação. Pichações e lixo acumulado no local.
  • Trilha até o forte sem sinalização. Precisa ir com calma e atenção, não recomendada pra crianças pequenas.
  • Acesso a Calhetas apertado e esburacado. Cuidado extra dirigindo até lá.
  • Demora de mais de 1 hora no Bar do Artur. Mesmo com poucas mesas ocupadas.
  • Tirolesa de Calhetas fora de operação na nossa visita. Confirme se está funcionando antes de contar com o passeio.

Investimentos

ItemValor (referência à época)
Camarão à grega no Bar do Artur (para 2 pessoas)R$ 147
Estacionamento em Calhetas~R$ 5

Vai fazer sua própria road trip pelo litoral do Nordeste?

A gente ensina como economizar em aluguel de carro e hospedagem no Curso VMM.

Esse post faz parte da nossa série Desbravando o Nordeste do Brasil. Veja também nosso post sobre a Recife, primeiro destino da rota, e sobre a Praia do Francês, outra praia histórica de Alagoas com passeio de quadriciclo.

Perguntas frequentes

É verdade que o Cabo de Santo Agostinho foi “descoberto” antes de Cabral chegar ao Brasil?

O navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón chegou à região em 26 de janeiro de 1500, cerca de 3 meses antes de Cabral (22 de abril de 1500). É uma versão historicamente aceita, embora o termo “descobrimento” seja controverso, já que o território já era habitado por povos indígenas.

É seguro nadar nas praias do Cabo de Santo Agostinho?

O trecho entre a Praia do Paiva e a Praia da Piedade tem histórico documentado de ataques de tubarão, com sinalização de risco. Calhetas não compartilha esse histórico, mas é uma praia de mar que aprofunda rápido logo depois da arrebentação, exigindo cuidado de quem não é nadador experiente.

Quantas praias tem o Cabo de Santo Agostinho?

São 9 praias ao longo de 24 km de orla: Suape, Paiva, Itapuama, Pedra do Xaréu, Praia do Cabo, Enseada dos Corais, Gaibu, Calhetas e Paraíso.

Dá pra conhecer o Cabo de Santo Agostinho inteiro num só dia?

Dá, com carro próprio ou alugado e roteiro planejado com antecedência. Fizemos assim, começando pela Praia de Suape de manhã cedo e terminando no mirante do restaurante Bosque Verde na hora do pôr do sol. Sem carro, a lógica muda, e o ideal é escolher uma ou duas praias por dia.

Qual a melhor época pra visitar o Cabo de Santo Agostinho?

Entre setembro e março, período mais seco do litoral pernambucano, com mais sol firme pras praias e pra trilha até o Forte Castelo do Mar. De abril a agosto entra o período mais chuvoso, o que pode atrapalhar principalmente a descida até o forte, já íngreme e sem sinalização mesmo em dia seco.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você também vai gostar desses posts